quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sou


Ainda não sou, mas serei. Mas já sinto. O perfume, encantador das balzaquianas. Só elas sentem e sabem. Esse poder, esse sabor. Honoré de Balzac que me confirme. A beleza explícita nos 30. Que beleza, são como balões no ar, flutuam, a rodopiar, a colorir, a estar.
Somos, seremos, um tango valente, com a melodia da paixão. São elas chegando, as balzaquianas. Não saberia dizer isso se não me sentisse uma. Vou, sempre irei. Diz-me com que pernas devo seguir. Vou por aqui, nestas travessuras. Se já perdemos a noção da hora, construa para nós. Queremos sim, na bagunça do teu coração, amar como dois pagãos. Na ordem das balzaquianas não se faça de tonta, não se cure, seja, sinta, veja. Te dei meus olhos pra tomares conta.

Ah, esse cara tem me consumido.

A mim e a tudo que eu quis.

Com seus olhinhos infantis.

Com os olhos de um bandido.

Ah, esse cara tem me consumido.

A mim e a tudo que eu quis.

Com seus olhinhos infantis.

Com os olhos de um bandido.

Ele está na minha vida porque quer.

Eu estou para o que der e vier.

Ele chega ao anoitecer.

Quando vem a madrugada.

Ele some.

Ele é quem quer.

Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher.
Cazuza

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Escondida em mim

Andei meio distante. Distante das palavras, da leitura, de mim mesma. Distante de sentir. Nessa cobrança feroz do agora, não consegui equilibrar minha pequena vida. Hoje escrevo em primeira pessoa. Sem personagens, mas como protagonista. Devo confessar que todos nós temos vestígios de um pseudônimo escondido, não estou falando de máscaras, mas de fantasias imaginárias como marionetes de uma peça chamada Vida. Senti saudade de estar nesse mundo criado por "nós", longe das mentiras e da crueldade dos corações gélidos e sombrios. Mas quente e perto de meus sentimentos, que apesar de confusos, são meus. Voltei para olhar ao redor e ver os detalhes, o pequeno gesto que faz a diferença. A pequena atitude que se transforma em grandiosa perante pessoas do bem. Passei a prestar atenção no carinho de olhares em vão, de palavras jogadas ao vento, de alegria transformada em felicidade. Devo confessar que é difícil ser sensível nos dias de hoje. Observar entre arranha-céus os pássaros e voar com eles no infinito azul. A permitir-se quando muitos não se deixam permitir, nem mesmo sabem o que é isso. Senti falta de andar por aqui. De pisar nas pedras que eu coloco em meu caminho para que em cima delas eu veja um pouco mais do alto e tenha a sabedoria de atravessá-las com segurança e determinação. Não que seja fácil, pois nenhum caminho é largo. A trajetória é sempre estreita, mas depende de seu ponto de vista. Andei pelo remorso, pela vontade de ficar e de ir; andei por incertezas, dúvidas, e até pela vontade de parar. Mas voltei por uma força mais forte que a minha. Aquela que dilacera, mas não frangalha. Aquela que mostra sem interceder. Espero não partir no próximo trem, já que nessa estação não quero mais ficar. Não quero adormecer sem desejar. Um turbilhão de sentimentos. Uma hora aqui, noutra lá. Queria ser mais, não ter, mas crescer. Deixar-me levar pela melodia. Não ter certeza, mas confiar no primeiro passo. Hoje, sem personagens, falo de uma pessoa que aprende todos os dias. Sente o amor ao seu lado, mas muitas vezes nega-lhe as mãos. É bom estar aqui. É bom saber que tem mais por vir. Mais erros, lágrimas e aprendizados. Mais vontades e acertos. Gente e pessoas. Gargalhadas e a imensa vontade de ser. Eu estava aqui.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Por seus olhos escrevi

Foi o olhar. Sim, Clarice reconhecia aquele olhar. Voltou-se para seu amigo inseparável, seu diário, para lhe escrever, já que as lágrimas se recusavam a escorrer-lhe a face. Era assim para ela. Sem dor, com muita intensidade. Um dia escutou que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Não queria sentir, mas precisava. Da infância tinha o colorido. Do amadurecimento o aprendizado. Sentou-se, não queria perder muito tempo para começar escrever sua carta. Não era despedida, nem agradecimento, muito menos um olá. Era apenas reconhecimento. Daquilo que fora sua doce presença. O olhar. Verde, castanho, preto. Azul da cor do mar. A cor dos olhos não importava para ela que sabia que postaria a carta feita ao remetente certo. Com alguns rascunhos no lixo começou:
- Escrevo-te por estas mal traçadas linhas meu caro, o quanto ponho em minhas palavras a saudade de ti sentir. Há muito não lhe vejo. Mas a saudade de sua amizade se faz presente em seu olhar. Brando, sereno, cor de água. Azul nos dias bons, verde nos incertos. Vivi e aprendi. Recitar-lhe uma poesia é a certeza que nos aproxima.

Pra ti, lhe prometi
Cumplicidade, amizade
Mas foi na lembrança
Da distância, que percebi
Nas neves de sua cidade
Minha mera esperança
De um dia lhe olhar
No imenso amor de sua felicidade.

Vibrante alegria


Era um dia comum. As pessoas, claro, não eram comuns. Faziam parte de uma realidade que há muitos não pertenciam. Risadas, na verdade, gargalhadas, unia essa gente. Tão simples nos sentimentos, mas tão grandes na capacidade de sentir. O motivo, um jogo na TV, não mobilizou muitos, mas o suficiente para que a festa estivesse pronta. A amizade estava ali. Na sala, o ambiente de vibração e gritos. O manifesto estava pronto. Camisas a postos, sorriso nos lábios, era o manifesto brasileiro. Um dos desejos mais bem-vindos entre tantos seres que esperam uma vitória. Mas eles desconheciam que a vitória estava bem próxima a elas. Nada mais comemorativo do que ter uma sala cheia de gente. Gente pura, verdadeira. Gente da paz, da vida. O gol demorou a sair, mas saiu. A vitória esperada foi encontrada. Não pela bola na rede, mas pelo momento que ali estava no tempo. O tempo que se foi. O tempo que ficou.

* Aos meus queridos amigos que enchem a sala de alegria. Aos camisas verde amarela; branca e preta; preta, vermelha e branca, aos sem cores e aos sem camisa, enfim à eles, sempre.

A Vida no Olhar das Borboletas



Assim começo

Ver pela fresta
Intensamente, inexplicável
De um jeito
Ameno, amigo, amável

Notando quantos
Olhares perdidos

Ostensivos, verdadeiros
Lembram a
Hora que não querer parar
A vida que não quer ficar
Recebida de mãos beijadas

Dedilho
Ali e aqui
Sonhos, sonhadores

Belezas
Ora por você
Respeitável em suas
Benevolências
Ora por ela
Livre, lírica, linda
Esperança de encontrar
Tamanho na
Altura do
Sentido de ser, seremos
* para relembrar minha adolescência, quando adorava brincar de fazer acrósticos.

terça-feira, 25 de março de 2008

Nas paredes do casarão

A gargalhada ecoou pelo ambiente e quebrou o silêncio. Em volta da grande mesa de madeira a família se reunia. Um costume que se arrastava há anos e que unia os mais diversos sentimentos. Entre uma conversa e outra uma fartura de doces em compotas, guloseimas, pães e sucos. Quase tudo feito na hora, no calor do dia, com o forno de testemunha. A algazarra tomava conta do casarão. Nas paredes, marcas de uma história de gerações escrita por José e Ana. Ele, apesar de pequeno na estatura era grande na capacidade de ajudar os que lhe pediam. Forte, perspicaz era uma aroeira em forma de gente. Companheira, sempre ao lado de José, ela tinha a voz branda e o olhar seguro. Juntos, sentados, andando, colhendo, eles plantaram sementes e recolheram flores pelo caminho. Frutos de um amor arranjado, prometido, mas consumado. De Ana nasceram os filhos. À mesa se portava os netos e era assim que Marina se recordava. Passado dez anos, a moça de pouca fala e cabelos escassos, se calou pela distância. Saudosa, Marina percebeu que havia crescido. O tempo não estava ao seu lado, pois o achava rápido demais. Os ponteiros do relógio de bolso, herança de seu avô, passavam acelerados aos seus olhos. Sim, ela cresceu. E com ela, veio o desgosto da separação, que para ela, era seu maior pesadelo. O crescimento lhe trouxe amadurecimento. Sim, ela reconhecia. Mas com ele, de mãos dadas, veio a saudade. Palavra que martelava seu coração. Como doía sentir a distância. A larga estrada que a separava de tudo aquilo que amava. Sozinha, continuava sua história, não completamente da maneira que queria, ultrapassando os percalços, mas seguindo seus passos junto a ela. Do amor se fez a lembrança. Da saudade a eterna criança. Da infância a mesa farta. Da fartura a família que amava. Adormeceu sentindo nas paredes parte daquilo que lhe pertencia nos doces sabores de uma enorme distância.

* Em especial às pessoas que me amam incondicionalmente e que estão no meu caminho para que eu seja um ser melhor nesse mundo de verdades e presentes.