
Já passava da meia noite quando Clarice conseguiu terminar um importante texto para a próxima edição da revista Atípica, que inclusive lembrou-se que já passara de seu deadline. Cansada, com as idéias ainda cambaleando em seu pensamento, ela não resistiu à tentação de escrever em seu diário. A escrita a consumia e ao mesmo tempo alimentava seus irregulares pensamentos. Rodopiavam em sua mente extraordinária e não lhe davam sossego. Eram muitos, em quantidade incontável, brincavam dentro de sua caixa, indecifrável para qualquer estudioso. Seu diário era seu porto-seguro, onde declarava amores, respondia suas mais sombrias dúvidas e compartilhava pensamentos inerentes e perdidos no tempo. Além de seus desejos eróticos, não muitos, mas que sempre rondavam por sua galáxia chamada cérebro. Mesmo se sentindo sozinha, não admitia querer um parceiro que lhe aprisionasse, lhe arrancasse as forças do fruto proibido. Gostava era de ser livre e em seu diário expor suas aventuras imaginárias. Em seu pequeno quarto, de janelas amplas, que proporcionava um ar fresco a noite toda, Clarice se entregou ao seu pequeno companheiro. Com caneta esferográfica nas mãos, sua preferida no testemunho, começou a rabiscar as primeiras linhas de uma página qualquer;
- Há meu caro, de onde vem o instinto impulsivo em transpor nessas linhas e folhas brancas tamanha sensação de prazer. É aqui, sem cesura e críticas, apenas as minhas, que me liberto e solto todos os meus mais impetuosos suspiros. Transbordo a alma, mesmo sem entender muito bem como fazer isso, apenas arrisco e nesses rabiscos me sustento. Sei que um dia colarei algumas fotografias nessas páginas. Um pouco de colorido, já que pinto suas páginas apenas com a cor azul, não que goste menos, mas precisamos alegrar nossos dias com vermelho, amarelo e rosa. Sem contar o verde, que em seu tom mais fraco remete ao equilíbrio quando nos lembramos dos tapetes divinos. Além do azul Portinari, que nos faz viajar ao mar, ao céu, como pássaros em busca de liberdade e paz. Assim como eles me volto a você como um amigo confidente, fiel. Nunca me abandona e ao meu lado ficará mesmo que cometa erros e deslizes. Não me julgas, pois sabe que os erros são humanos e reconhecê-los um mérito. Me ama, pois sabe que apesar de pequena, meio desengonçada, o que mais vale é o brilho em meus olhos. Me quer, porque como a raposa disse ao Pequeno Príncipe, você parefrasea dizendo que me torno eternamente responsável por aquilo que cativo. Assim sem pormenores, te digo meu caro amigo: por você sou mais inconseqüente, mais coração e menos razão. Por você, escrevo em suas páginas para um dia, quem sabe, cativar mais um amigo, sabendo, nas entrelinhas, quão humana sou, mas quanta capacidade de amar há dentro desse pequeno diário...